Seg
, 01/05/2017 às 09:15
| Atualizado em: 01/05/2017
às 09:22
Eron Rezende ATARDE
Luciano da Matta | Ag. A TARDE
 |
| Bule Bule irá comemorar os 70 anos com um DVD ao vivo |
Quem é ele? O próprio responde. “Antônio Ribeiro da Conceição, flor
do norte baiano, companheiro da República Federal, moço do código da
lei, caixola que Deus me deu, inspetor juramentado; se perguntar cadê
ele, ele está aqui: seu criado! Filho de Manoel Jararaca, que mora na
Loca da Pedra; se meter o pé com ele, vai ver o rolo da queda. Sou este
moço que está na sua beira, cravo das moças e alecrim que cheira. Filho
de Isabel Ribeiro da Conceição, doceira, louceira, benzedeira, parteira e
outras eiras”.
Bule Bule, a alcunha que Antônio carrega desde moço, sobe as escadas
de sua casa, em Camaçari – a cerca de 50 quilômetros de Salvador –,
cantando o epílogo da conversa. Violão em mãos, chapéu também. Alcança o
seu salão-relicário. Ali estão as peças de meio século de carreira.
Cordéis, discos, quadros em que foi retratado, anotações para futuros
livretos e canções. A sua “biboca cultural”, como ele diz, aos poucos
vai ganhando as feições de um pequeno museu. A intenção, ainda sem data
cravada, é abrir o espaço à comunidade. “Para que a cultura popular não
seja esquecida”.
Repentista, sambador e cordelista, Bule Bule completará, em outubro
próximo, 70 anos. A data já mexe com sua agenda. No dia 18 de abril, ele
foi homenageado durante a Bienal Internacional do Livro do Ceará, que
teve a curadoria do escritor Lira Neto, ao lado de outros dois poetas
populares – Geraldo Amâncio e o pioneiro Leandro Gomes de Barros
(1865-1918). No dia 20 deste mês, dividiu o palco com o grupo
BaianaSystem. E, com um CD em fase de pós-produção, já planeja um show
solo e comemorativo para o final do ano, que resultará em um DVD e um
novo álbum. “Só paro se for doença. De resto, a vida é coisa demais para
ficar quieto”.
Pra vida ficar maravilhosa
No último ano, no entanto, Bule Bule precisou realmente desacelerar.
Com a insuficiência renal agravada, o artista passou a fazer sessões de
hemodiálise três vezes por semana. O transplante de rim, há seis meses,
pôs fim a uma dura rotina e o jogou em outra. Os horários de seus
remédios, quase sempre, são controlados por sua esposa, Gina, com quem
vive há pelo menos 30 anos.
De postura babélica, como um menino que enxerga as coisas pela
primeira vez na vida, Bule Bule bem que tenta se adaptar às novas regras
da saúde. Mas não sem algum protesto. Às vezes, simplesmente,
tranca-se no andar de cima da casa onde mora com a família, com os
pertences de uma vida de trabalho. E, se batem à sua porta, responde,
rimado: “Troque a sua espoleta numa rosa, jogue fora suas balas,
dum-dum; troque o seu três-oitão num jerimum, para a vida ficar
maravilhosa”.
Com uma centena de títulos de cordéis publicados e oito discos
lançados, Bule Bule é um dos poucos representantes da cultura popular de
raiz com presença forte na internet. Suas músicas estão disponíveis no
YouTube e em serviços de streaming e seu site é atualizado de forma
constante. Fruto do trabalho do filho e produtor, Paulo, mas também de
uma visão do próprio artista. “Sou muito analfabeto para essa linguagem,
mas não sou cego. Sei o que é uma imagem bem construída”, diz.
De chapéu e casaco de couro, Bule Bule construiu a sua figura como
um defensor de gêneros musicais autenticamente nordestinos, a exemplo
do samba de viola e do repente. Bule Bule hoje é sinônimo de celebração
nordestina em alta voltagem, uma estampa asseverada em 2008, quando foi
condecorado com a Medalha da Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo
governo brasileiro a personalidades que contribuem para a cultura
nacional.
Durante a premiação, o maestro Roberto Tibiriçá, que conduzia a
Orquestra Sinfônica Heliópolis, usou o microfone para dizer que um
preconceito com a música popular brasileira tinha sido quebrado naquela
noite. Um pagamento que, diz Bule Bule, não vem no contracheque.
“Preconceito todo mundo tem, meu poeta. O problema é assumir que tem. No
mais, é uma coisa muito gostosa você tocar alguém que está em outro
universo. E, venha o outro – com preconceito ou não –, eu sou muito
prático e adaptável. Minha rédea é móvel”, confessa.
Repente e beatbox
No show que fez com a banda BaianaSystem – no palco armado na Praça
Tereza Baptista, no Pelourinho –, Bule Bule exibiu toda a sua
maleabilidade: as bases eletrônicas serviram ao seu samba de improviso,
feito em pique juvenil. E Bule Bule arriscou até um compasso que
lembrava o beatbox, a percussão feita com a boca no hip-hop. Ao lado de
Russo Passapusso, vocalista e compositor da BaianaSystem, ele trouxe o
sertão para o centro.
Russo Passapusso e Bule Bule no show do Baiana System no Pelourinho. Foto: Adilton Venegeroles / Ag. A TARDE
“É vital que as bandas sejam carregadas de informações tradicionais
antes de fazerem uma tradução”, diz Passapusso. “Bule Bule representa o
processo de incorporação da música na própria pessoa. Ele é a própria
arte. Quando você o vê, enxerga regiões e épocas. Está tudo dentro de
sua fala. E quando você tem uma participação como essa no palco, é esse o
legado: um entendimento de raiz”.
A história de Antônio da Conceição começa na cidade de Antônio
Cardoso, localizada a 145 quilômetros de Salvador, um tanto agreste e um
tanto sertão. Município com maior número de pessoas que se dizem negras
no Brasil, segundo o último Censo do IBGE, esta é uma cidade de
tradição de violeiros e de rezadeiros. O pai, agricultor, mesclava a
lida diária com a de artista e foi em sua companhia que o filho aprendeu
a versar.
“Sambador tem que saber fazer segunda ao parceiro; a cuia, a palma, o
pandeiro, tem que aprender a bater, cantar leve para o velho, tratar o
moço com amor; tendo essas qualidades, é sambador”, escreveu Bule Bule
na letra de Samba que não tem viola.
Com o pai e outros artistas da região, Bule Bule pegou as manhas das
rezas em festas dedicadas aos santos (onde o pagamento aos rezadores,
por parte das famílias abastadas, era feito com o direito de fazer a
primeira refeição e de ter a melhor fronha para se ajoelhar em frente à
imagem do santo).
Aprendeu, igualmente, os truques da parte profana. Nas rodas de samba
há o licutixo, feito para atrapalhar a vida de outro sambador. Bule
Bule explica: “O sujeito que está cantando coloca o pandeiro em cima da
voz, para o outro não entender. Mas se o outro for esperto, fica abaixo
do pandeiro, pega o som canalizado e entra no assunto do samba”.
Foi em Antônio Cardoso, também, que recebeu o título que o acompanha
desde então. Aos 10 anos, na padaria em que trabalhava, foi desafiado a
carregar um monte de massa de pão que nem adulto dava jeito de tirar da
masseira. Tarefa cumprida, algum rapaz desdenhoso soltou que aquele
moleque até podia conseguir, mas não ia crescer. Miúdo daquele jeito,
seria um eterno bule-bule. A referência ao casulo, a borboleta em fase
de metamorfose, ficou.
“Tive um passado de menino pobre. Mas como eu não tinha vida melhor
que aquela, estava muito boa. Hoje é que sei o que faltou”, diz. “Outro
dia pediram fotos da minha infância. Mas só filho de rico possuía
retrato. Eu não tinha nem quem fizesse, nem tinha possibilidade de ir
até a cidade fazer. Quando tirei a primeira foto foi para fazer o
documento de votar”.
Alarde
Cantadores da terra do sol (1980) foi o primeiro álbum de Bule Bule,
gravado em parceria com o cantador Zé Pedreira. Embora já fosse bastante
conhecido em praças e clubes do interior da Bahia, o disco o levou a
mais cidades do Nordeste. Pouco mais de uma década depois, o CD A fome e
a vontade de comer (1994), concebido com o sambador Antônio Queiroz, o
levou a diversas capitais do país e a uma popularidade até então
inédita.
Queiroz, hoje vivendo na cidade de Serrinha, recorda que, naquela
época, eles chegavam a fazer quatro shows numa única semana.
Geralmente, em cidades pequenas, onde a política tinha um único
sobrenome, o assédio vinha de colarinho-branco.
“Numa daquelas viagens, após ser convidado a se lançar como político,
Bule Bule entrou em silêncio e, num guardanapo mesmo, começou a
escrever um poema”, lembra Queiroz. “O poema dizia bem assim: ‘Eu
quero nada, doutor! Ser igual a muita gente, que passa a ser presidente
de uma empresa estatal, tira o couro da pobreza, castra os lucros da
empresa, só em seu bem pessoal’”.
Os ditames da política nacional estão presentes, porém, em muitos dos
cordéis que Bule Bule assina. Ao acompanhar as notícias atuais vindas
de Brasília, ele diz penar. “Sofro de sede justiça. E, como todo mundo
que sofre disso, gostaria que as coisas acontecessem para o bem. A gente
coloca os políticos num lugar e eles viram bichos. Tiram o próprio
coração e ficam vagando sem sentimento. Eles sabem o que nós precisamos,
mas estão preocupados com eles e com os seus”.
Durante o impeachment da presidente Dilma Rousseff, ele achou por bem
não ficar calado. Concebeu um cordel batizado de Golpe 2016 e enviou a
todos os deputados e senadores que se mostravam favoráveis à permanência
de Rousseff no cargo. Num trecho dele, escreveu: “Dilma bebeu o veneno
que Temer lhe deu na taça. Por isso Cunha ameaça e vai minando terreno.
Não tiveram nem aceno dos milhões de eleitores. Ficam esses dois
impostores, com manobra e mais manobra. Um dia o destino cobra, a dívida
dos traidores”.
Entre os parlamentares para os quais diz ter enviado o cordel, em
Brasília, apenas a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) acusou o
recebimento. “Quando eu vi que ninguém ali comprou a minha briga, senti
que caí num falso conto”, diz Bule Bule. “A defesa de Dilma Rousseff foi
um jogo de cena. Não era algo que eles estavam defendendo com alma e
nem mesmo comprando a ideia, estavam falando por falar. Hoje, eu podia
até calar a minha boca e esperar o bonde passar. Mas prefiro continuar a
fazer alarde”.
Num dos lotes de cordéis que enviou à Alemanha, no final do ano
passado, Golpe 2016 estava presente. A remessa tinha como destino certo o
artista e editor germânico Stefan Bartkowiak, um entusiasta da
literatura brasileira, que pretende fundar um museu itinerante
totalmente dedicado à literatura de cordel e ao samba de roda.
A ideia, levantada quando Bule Bule e o músico Mateus Aleluia se
apresentavam naquele país, segue agora na fase de reunião de acervo.
Na encomenda, postada para a Alemanha, ainda estava o cordel A tragédia
entre dois amantes, o primeiro de autoria de Bule Bule, sobre um
triângulo amoroso passado em Feira de Santana.
“Já deveríamos ter um museu desses no Brasil”, diz Mateus Aleluia.
“Mas, aqui, a cisma com a cultura popular não é contra a expressão, mas
contra quem a pratica. Quando é feita por alguém que pertence a uma
classe dominante, dá-se outro nome, uma modernidade qualquer. É um
preconceito de classe. Felizmente, temos a resistência de alguém como
Bule Bule, um mestre do saber”.
Voz de resistência
Em sua casa, Bule Bule vem catalogando os cordéis que já assinou. A
bagunça feita pelos cinco gatos de rua que ele abriga torna a tarefa um
pouco mais lenta. Mas a memória quase nunca falha: sabe a data de cada
um e o contexto em que foi escrito. Nesse aspecto, os cordéis de tom
político lhe dão a impressão de viver num eterno looping.
Em 1985, por exemplo, indignado com desvios de verbas no Instituto
Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps), versou:
“Brasil fantástico falado no jornal e na revista, onde atleta e
estadista vê o erro e cala a boca. Só o cordelista pobre, o cantador de
repente, canta em prol de sua gente até ficar com a voz rouca”.
Em Camaçari, a cidade que adotou após trabalhar no Polo Petroquímico,
no final dos anos 1970, ele costuma visitar escolas, a pedido de
autoridades e educadores. Dos estudantes, recebe risos, aplausos e
perguntas. Outro dia, lançaram essa: pensa na morte? Ao que ele
respondeu com um “vixe, tô me sentindo na metade da minha vida”.
Mas Bule Bule diz que, sim, pensa. E de que forma encara a finitude? O
próprio responde, recorrendo a uma rima feita em homenagem ao pai:
“Morro, mas não me entrego. Passo da vida para a história. Tive
existência de glória, mas chegou ao fim. Vou feliz porque, enquanto
houver novena e pandeiro, repentista e tiraneiro, alguém lembrará de
mim”.