Meio Ambiente & Desenvolvimento Humano

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Robótica impulsiona carreira de estudantes e profissionais

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
 
 
 
Aos 14 anos, o estudante Lucas Remoaldo Trambaiolli, 27 anos, participou da primeira edição do Torneio de Robótica promovida pelo FIRST LEGO League no Brasil, em 2004. Agora, em 2017, o jovem se prepara para viajar para o Canadá em março, onde cursará parte do doutorado em Neurociência, que ele começou na Universidade Federal do ABC, em São Paulo. Isso, depois de concluir a graduação em Engenharia Biomédica e mestrado em Neurociência.
 
Para passar de competidor a doutorando, muita coisa aconteceu na vida dele, mas a robótica sempre esteve presente. O jovem também atuou como juiz em várias temporadas. Só que antes de entrar na competição, Lucas imaginava que a robótica fosse bem diferente. “Eu só enxergava duas coisas: ficção científica ou chão de fábrica. Achava que era aquele braço robótico que constrói o carro, por exemplo. Mas com o torneio mostrando temáticas para a gente resolver problemas aplicando a robótica, percebi que seguir a área tecnológica seria uma possibilidade para ajudar as pessoas”, conta.
 
E ajudar as pessoas é justamente algo que faz parte da pesquisa de Lucas no doutorado: como controlar o computador apenas com a imaginação. “A gente tem dois focos: reabilitação motora e reabilitação psiquiátrica. Nas duas situações é utilizada uma interface cérebro-computador, em que o usuário tenta controlar algum estímulo na tela apenas com a força do pensamento, digamos assim. A ideia é levar o projeto para aplicações clínicas.
 
Para Lucas, a robótica influenciou toda sua carreira estudantil. “Todo aprendizado de lógica, programação e estruturação de códigos que eu uso hoje em dia são aprendizados da época da robótica. Foi no torneio que comecei a pensar na tecnologia para resolver os problemas das pessoas”, diz. Veja o vídeo produzido pela Feira Brasileira de Ciências e Tecnologia (Febrace), que conta um pouco da trajetória acadêmica de Lucas Trambaiolli.
 
ESFORÇO RECOMPENSADO – Enquanto Lucas Trambaiolli está prestes a ir para o Canadá, dois estudantes do Serviço Social da Indústria (SESI) Vila Canaã, em Goiânia, João Victor Quintanilha, 17 anos, e João Barbosa, 18 anos, também estão com um pé no exterior. Eles participaram da temporada 2015/2016 do Torneio de Robótica, que tinha como desafio a busca de soluções para o lixo. A ideia deles foi um travesseiro com copos descartáveis. O projeto deu tão certo que a equipe deles foi convidada para apresentar o trabalho no Cientista Beta, evento com projetos de alunos de todo o Brasil, realizado na sede do Google, em São Paulo.
 
“Graças ao projeto, nós ganhamos uma bolsa, com tudo pago, para conhecer algumas universidades dos Estados Unidos. Ficamos 18 dias nas universidades Bluefield College e Saint Bonaventure University. Fizemos essa viagem em janeiro deste ano, onde apresentamos o projeto do travesseiro”, conta.
 
Os dois voltaram dos Estados Unidos com uma proposta tentadora. Se forem aprovados no TOEFL (teste que avalia a capacidade de usar e compreender a língua inglesa), eles podem ganhar uma outra bolsa, com tudo pago, para fazer um curso de graduação em uma das universidades visitadas em janeiro. “É uma experiência incrível. É muito legal ver que nosso esforço durante os três anos do ensino médio está valendo a pena. São projetos que agregam não apenas ao nosso currículo, mas nos ajudam como pessoa”, diz João Barbosa. 
 
DO GIZ AO LEGO - Lucas Remoaldo Trambaiolli, João Victor Quintanilha e João Barbosa são apenas alguns exemplos de estudantes que se apaixonaram pela robótica e, a partir desse modelo de ensino, foram estimulados a a buscar mais conhecimento. Com desafios cada vez mais envolventes e colocando os alunos para pesquisar soluções inovadoras, a robótica educacional é uma importante aliada do ensino nas escolas.
 
“A robótica torna o aprendizado mais divertido, porque é a partir da prática que o aluno constrói o próprio conhecimento. Ele acaba se interessando mais. Isso desenvolve a criatividade e o raciocínio lógico”, afirma o doutor em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professor do Departamento de Ciência da Computação, Douglas Marcharet.
 
Para ele, quanto mais cedo as crianças e adolescentes tiverem contato com a robótica, melhor. Na avaliação de Marcharet, esse aprendizado influencia a carreira profissional, impactando lá na frente, já que a ciência e a tecnologia são fundamentais para o desenvolvimento econômico e social de um país. A proposta, segundo o professor, é mostrar que a robótica não é algo difícil.
 
Os robôs de Lego também estão presentes nas aulas de Introdução à Robótica minstradas pelo professor na UFMG. Há, inclusive, uma competição entre os alunos do curso que inclui a programação e montagem de máquinas autônomas. No ano passado, os robôs tinham como objetivo combater o mosquito aedes aegypti, transmissor da dengue, da febre chikungunya e do zika vírus.
 
O professor reconhece que os torneios organizados pelo SESI são um incentivo importante por parte do setor industrial. “O aluno olha e consegue reconhecer que ao estudar a robótica ele pode aplicar esse conhecimento dentro da indústria, pensando até mesmo no emprego. Porque justamente o que desmotiva alguns estudantes é onde ele vai aplicar o que ele está aprendendo. Então, ele associa a robótica com a utilização na vida profissional”, argumenta.
 
ROBÔS PARA A INDÚSTRIA – “A robótica antecipa a realidade que essas crianças e adolescentes vão encontrar no mercado de trabalho”, afirma o gerente da Divisão de Robótica para a América Latina da Comau, Felipe Rodrigues Madeira. A Comau é uma fabricante de robôs automobolísticos e para outras áreas industriais, com uma filial em Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte. 
 
Para Felipe, a robótica educacional vai além da prática com os robôs de Lego. “Além do aprendizado com os desafios, todos serão melhores profissionais com os valores  que aprendem nas competições de robótica do SESI, como o trabalho em equipe”, afirma. Em cada torneio, as equipes são avaliadas, dentro de outras coisas, pelo desempenho em conjunto do grupo. Eles aprendem que na vida profissional também vai ser assim.
 
Exatamente por isso, Felipe considera que esses meninos e meninos que convivem com a robótica são os profissionais que a indústria vai contratar amanhã. “Os maiores destaques vão seguir essa carreira e serão os profissionais que as empresas como a Comau e outras vão ter interesse em ter nos seus quadros. Ainda que não seja necessariamente na robótica, mas em áreas técnicas ou engenharias”, explica.
 
A Comau também participa desse processo de ensino-aprendizagem. É que robôs produzidos pela empresa já podem ser encontrados em laboratórios da UFMG e Universidade FUMEC, em Belo Horizonte, no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), de Betim (MG), na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), entre outras instituições. As máquinas são utilizadas para treinamento dos alunos.
 
No cenário atual, segundo Felipe, há uma carência de engenheiros no Brasil. Ele afirma que não é tão simples para uma empresa como a Comau se estabelecer no país e encontrar um quadro de técnicos qualificados. Nessas horas, ele conta que, por obrigação, e não por vontade, é preciso trazer profissionais do exterior.
 
“Um engenheiro bem formado na graduação e com valores diferenciados, apreendidos nos torneios de Robótica do SESI, será um profissional mais  interessante. O robô atrai mão-de-obra qualificada e há vagas. O Brasil está muito longe da média de robôs por empregado quando comparado a outros países. Temos uma necessidade, que só vai crescer, de profissionais de robótica”, finaliza.
 
TORNEIO DE ROBÓTICA – Desde 2013, o Serviço Social da Indústria (SESI) é o organizador oficial do Torneio de Robótica FIRST Lego League. A cada temporada, estudantes de 9 a 16 anos, de escolas pública e particulares, são desafiados a apresentar soluções inovadoras para determinados temas. Na temporada 2016/2017, o desafio Animal Allies incentiva os alunos a pesquisar sobre a relação entre homens e animais, de que maneira um interfere ou pode ajudar a vida do outro.
 
Durante a competição, cada equipe precisa apresentar um projeto de pesquisa com uma solução inovadora para o tema, além de planejar, projetar e construir robôs com peças Lego. Esse mesmo robozinho terá de cumprir missões na mesa da competição, em partidas de até dois minutos e meio. E, finalmente, cada grupo de estudantes precisa mostra que sabe trabalhar em equipe. É assim que os times são avaliados.
 
A etapa regional da competição começou em novembro do ano passado. As melhores equipes participam do Torneio Nacional de Robótica, entre os dias 17 e 19 de março, em Brasília. Quer saber tudo sobre o Torneio de Robótica? Acesse o site oficial da competição!
 
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