Meio Ambiente & Desenvolvimento Humano

domingo, 5 de março de 2017

Estudo identifica reações involuntárias em pessoas que leram poesia

A descoberta pode embasar o uso do texto para o tratamento de complicações que atingem o órgão, como o AVC

 postado em 05/03/2017 08:01     Fonte: Correio Braziliense

O escritor modernista Thomas Stearns declarou acreditar que a poesia genuína consegue se comunicar antes de ser compreendida. A crença do norte-americano acaba de ganhar respaldo científico. Investigadores do Reino Unido analisaram o cérebro de voluntários enquanto liam poesias e notaram uma resposta neural apenas quando os participantes tinham contato com os textos que seguiam um padrão fonético específico e pouco comum. Segundo os autores do estudo, publicado na revista internacional Frontiers in Psychology, a constatação demonstra que o ser humano tem uma apreciação inconsciente de obras poéticas, e o fenômeno estaria ligado a aspectos da construção do texto, como a rima e o ritmo.

Guillaume Thierry, autor principal do estudo, ressalta que a pesquisa é incomum, assim como a poesia muitas vezes parece ser. A busca por entender melhor o cérebro é uma jornada que dura 15 anos na vida do cientista, que tentou, nessa investigação, descobrir mais sobre os efeitos de obras artísticas sobre o órgão humano. “Parece que a arte pode falar mais diretamente com a ‘mente animal’ dentro de nós, uma mente que é totalmente não verbal e profundamente ligada ao nosso eu afetivo. A poesia é certamente uma dessas formas de arte que nos move, atinge profundamente a alma e o coração de uma pessoa e, muitas vezes, somos incapazes de explicar por que ocorre, apenas sentimos”, ressalta o pesquisador da Universidade de Bangor.
 

A intenção de Thierry era saber se a poesia poderia cumprir a tarefa de ser percebida como especial, mesmo quando a pessoa exposta a essa arte não tem qualquer experiência anterior com ela ou qualquer conhecimento especializado sobre o tema. Para isso, ele e os colegas criaram versos de um tipo de texto antigo chamado cynghanedd que seguiam as regras do gênero e três versões que terminavam de forma incorreta ao padrão utilizado na técnica. Os homens e as mulheres participantes do estudo eram falantes nativos do galês, a língua dos poemas, mas não conheciam a forma poética.

Enquanto suas atividades cerebrais eram monitoradas por meio de eletrodos colocados na cabeça, os voluntários leram todas as versões em uma sequência aleatória. “Nosso cérebro é sempre ativo e é essencialmente impossível desvendar as várias operações realizadas por ele de maneira superficial, apenas com o monitoramento feito por ressonância magnética. Então, o que fizemos foi apresentar muitos estímulos — nesse caso, palavras — e avaliar a atividade média do cérebro em muitos ensaios”, explica Thierry.

Inicialmente, os participantes foram convidados a classificar cada trecho lido como “bom” ou “não bom”. A análise mostrou que o cérebro dos participantes categorizou as sentenças que seguiam o padrão cynghanedd como boas, e não as que violavam as regras do gênero literário. Os autores também detectaram uma atividade cerebral chamada event-related brain potential (ERP) uma fração de segundo depois de os voluntários ouvirem a palavra final de cada construção poética realizada no padrão cynghanedd.

Segundo o autor, o fato mostra que, mesmo sem compreender inteiramente o texto, os participantes reagiram a ele e entenderam o seu formato. “O ERP não é exatamente a reação do cérebro quando se lê poesia, mas uma resposta média do cérebro a uma determinada palavra. Nesse caso, a palavra era a última de um verso desse tipo de poesia antiga”, detalha.

Thierry acredita que os achados mostram como o cérebro reage a poesias e que todas as características delas, como som e fonética, fazem parte desse processo. “Eu não acho que podemos fazer afirmações fortes, mas acredito que nossos resultados defendem uma origem profundamente intuitiva da poesia. A poesia parece embutida, é como uma intuição profunda. Todo ser humano é um poeta inconsciente. Alguns trazem essa intuição para a luz quando escrevem e cantam, por exemplo.”

Uso médico


Para Frederico Garcia, psiquiatra e professor do Departamento de Saúde Mental da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o trabalho britânico recorre a uma abordagem inteligente ao estudar um tema que desperta curiosidade. “O estudo é muito interessante, porque explica o nosso interesse pela poesia não só pelo conteúdo, mas também pela rima e pelo som. Essa foi a grande sacada do trabalho, demonstrar que não só o conteúdo, mas também a estrutura e a fonética, mesmo dita em outra língua, é capaz de produzir prazer. Não é só o que se diz, mas como soa”, opina o especialista, que não participou do estudo.

Segundo Garcia, mais estudos científicos tentaram decifrar como outros tipos de arte, o cinema, por exemplo, afetam mentalmente o ser humano. “Quanto à poesia, ainda não temos tanto material sobre”, complementa. O psiquiatra acredita que as descobertas têm potencial para ajudar a área médica. “Esses achados podem ser usados em tratamento. Sabemos que alguns tipos de música podem estimular a memória e ajudar no tratamento do Alzheimer, por exemplo. Caso uma pessoa sofra um AVC, o que faz com que ela não tenha mais a capacidade de reconhecer alguns grupos fonéticos, seria possível estimular a área do cérebro responsável por esse conhecimento por meio da poesia”, cogita.

Tradição galesa

É um tipo de poesia da língua galesa que precisa seguir um arranjo de som dentro de um verso. Para isso, emprega-se sonoridade, aliteração e rima. Mesmo de origem antiga, esse tipo de texto continua sendo usado por poetas do País de Gales.

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