Na semana em que caiu a liminar concedida pela Justiça Federal, para a suspensão da obra de canalização do rio Jaguaribe, Outra Bahia revela quem vai se beneficiar com o dinheiro público investido para “acabar com as enchentes” em Patamares.
Caco Caetano
Postado em 19 de agosto de 2017
http://outrabahia.com.br/
Há um personagem oculto na discussão sobre as obras que o Governo do Estado e a Prefeitura de Salvador estão fazendo na área de rio Jaguaribe, em Patamares, e que envolvem os rios Passa Vaca, onde existe um manguezal com uma espécie de crustáceo – o guaiamum – que está na lista de ameaça de extinção; o rio Trobogy e o Mangabeira: ninguém fala desse personagem oculto, o interesse das grandes empresas proprietárias daquelas terras.
Já ocorreram muitos debates e polêmicas sobre essa questão que envolveram os empreendimentos do Parque Tecnológico na Paralela; os condomínios Greenville, em Patamares; o condomínio Le Parc; o prédio da Ferreira Costa, e o Loteamento Parque da Biribeira, o Alphaville I, todos nessa mesma área.
Afinal, aquelas terras onde há uma significativa área remanescente de Mata Atlântica; o último manguezal de área urbana de Salvador; uma das maiores bacias hidrográficas da cidade, a bacia do Jaguaribe; pertencem ao município de Salvador? Ao Estado da Bahia? Não, pertencem a essas empresas e empresários, ou seja, à iniciativa privada.
E quais são essas empresas e empresários que acabam por se beneficiar e ter muitos lucros com as obras que estão sendo realizadas, ao preço de devastar o ambiente natural?
Uma delas é a poderosa PDG e a outra é a Patrimonial Saraíba, seguramente ainda mais potente e importante, dona de muitos milhões de metros quadrados entre as quatro grandes avenidas que formam o polígono mais valioso da especulação imobiliária da capital baiana: Avenida Paralela, Avenida Pinto de Aguiar, Avenida Otávio Mangabeira (a orla) e Avenida Dorival Caymmi.
A Saraíba já foi motivo de muita polêmica na Câmara de Vereadores, com seus projetos desenvolvidos na área, além de já ter sido alvo de denúncias na imprensa, chegando a acionar judicialmente um jornalista, Aguirre Talento, do jornal A Tarde, que chegou a ser condenado à prisão por críticas que foram consideradas acusações pela empresa.
A discussão sobre a relação entre as obras que estão sendo realizadas pela Prefeitura e pelo Governo do Estado, passa, também, pela implantação de três empreendimentos agrupados sob a sigla Greenville: o Lummo; o Atmos e o Platno, construídos pela PDG que, além deles, tem outros empreendimentos na região de Patamares.
Concreto. Um velho inimigo
O arquiteto Carl von Hausenchild, um
dos coordenadores técnicos do movimento “Participa Salvador”, que faz
parte do grupo que luta contra as obras do rio Jaguaribe, destaca que a
construção do Greenville implicou na implantação de uma fábrica de
concreto na área da bacia do Rio Passa Vaca. Ele mostra fotos de
satélite da área em 2005 (antes) e 2016 (depois) da concreteira.
Carl reclama que não foi tornado
público um estudo do impacto do resíduo dessa concreteira e fábrica de
pré-moldados no rio Passa Vaca e no manguezal que existe em seu
estuário, lembrando que o Parque do Manguezal foi instituído pelo
decreto municipal 19.752 de 13/07/2009 e que o manguezal é uma APP, área
de proteção permanente. Portanto, protegido por legislação federal.
Isso não foi levado em conta.
Salvador perdeu a relação
Caco Caetano, jornalista,
http://outrabahia.com.br/meio-ambiente/interesse-de-empresas-e-mais-forte-que-o-governo-prefeitura-e-o-meio-ambiente/
O que resta do manguezal ?
O diretor da FAPEX, Fundação de Apoio
à Pesquisa e Extensão, da UFBA, Antonio Fernando Queiroz, especialista
em Geoquímica de Manguezais, com doutorado em Geoquímica Ambiental pela Universidade
Louis Pasteur de Estrasburgo – França (1992), sugere que seja feita uma
avaliação técnica do Manguezal do Rio Passa Vaca pelos institutos de
Biologia e Geociências da UFBA, para determinar como está a qualidade
ambiental do manguezal hoje, após todos os impactos causados pelos
diversos empreendimentos ao longo dessa bacia hidrográfica.
Fernando explica que é importante
saber quais espécies sobreviveram a esses impactos, tanto na fauna como
na flora. A partir dessa avaliação técnica o diretor da FAPEX propõe que
seja desenvolvido um projeto de recuperação
de área degradada para a bacia hidrográfica e para o manguezal, “uma
vez que é o último remanescente de manguezal de área urbana de Salvador,
se acabar, acabou”, sentencia.
Salvador perdeu a relação
de valor com os rios
O biológo Pedro Luís Bernardo da
Rocha, do Programa de Pós-graduação em Ecologia e Biomonitoramento, do
Instituto de Biologia da UFBA, destaca que todos esses rios onde estão
sendo realizadas tais obras, estão muito poluídos, lamentando que a
cidade de Salvador tenha perdido a relação de valor (no sentido
ambiental e ecológico) com os rios. ”Quando um rio é coberto, ninguém
fica chateado, não é levado em conta que a cidade perde um pouco sua
relação com a natureza”, explica.
Ressalta que Salvador hoje tem poucas
áreas urbanas com maior conservação da biodiversidade, “o que diminui a
qualidade de vida da população”, explica. Cita o exemplo da avenida
Paralela, onde os diversos empreendimentos foram suprimindo as áreas
verdes. O importante para o biólogo Pedro Rocha é pensar na preservação
da biodiversidade e não só em espécies em particular, mesmo que elas
estejam ameaçadas de extinção.
Outra Bahia quer saber:
As empresas proprietárias das terras e dos empreendimentos imobiliários estão preocupadas com a biodiversidade, o meio ambiente e as espécies ameaçadas de extinção? Parece que não.
Caco Caetano, jornalista,
doutorando em Geografia – Unicamp/SP
Professor Assistente – UNEB
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