Presidente dos EUA anuncia aumento de 54 bilhões de dólares no orçamento militar, um dos maiores rearmamentos da história do país
Washington
Trump nunca escondeu isso. Trata-se de um falcão, que pretende resgatar a primazia militar de seu país. “Antigamente dizíamos que os Estados Unidos nunca perdiam uma guerra. E agora não ganhamos nenhuma. Estamos lutando há 17 anos no Oriente Médio, gastamos seis bilhões de dólares e estamos em pior situação do que nunca. Isso é inaceitável”, afirmou.
Pensando nesse objetivo, pouco lhe importam os acordos firmados no passado. Inclusive os mais delicados. Trump não só quer avançar contra o vespeiro islâmico, como também manifestou publicamente seu desprezo pelo tratado de limitação de armas nucleares ao anunciar seu desejo de ampliar o arsenal atômico do país. “Sou o primeiro a querer ver um mundo sem armas, mas não podemos ficar para trás de nenhum país, mesmo amigo. Temos de estar à frente da manada”, declarou.
Para Trump, essa escalada militar não reflete apenas uma forma de patriotismo. O multimilionário republicano sempre a vinculou à prosperidade econômica. “Reforçar o setor militar sai mais barato quando se avalia a outra alternativa. Estamos comprando a paz e pondo em risco nossa segurança nacional. Além disso, é um bom negócio. Quem irá construir os aviões e os navios? Os trabalhadores norte-americanos”, afirmou.
Pátria, canhões e empregos. O triângulo sobre o qual se baseia a aposta de Trump foi uma de suas principais promessas de campanha. Agora, baixando essa determinação, ele pretende realizá-la o quanto antes. Para isso, determinou às agências federais que comecem a trabalhar em um modelo de orçamento que atenda aos seus desejos. A proposta não deverá estar pronta antes de meados de março. Depois disso, terá de ser negociada e passar pelo Capitólio, onde a maioria é republicana, mas onde também tudo é submetido à pressão de interesses os mais variados. Esta será a primeira grande batalha legislativa de Trump, que tem governado até o momento com base em decretos.
É nesse terreno que se verá a sua capacidade de liderança do espectro republicano e também até onde podem alcançar os seus sonhos. Em princípio, o que o presidente apresenta é algo atraente para os conservadores. Ao aumento do orçamento militar, ele pretende somar uma diminuição geral de impostos, o desmantelamento da reforma na saúde (Obamacare) e uma forte desregulamentação no setor financeiro.
É uma pauta que agrada à maioria, mas a sua aplicação poderia ser explosiva. É o caso, por exemplo, do Obamacare. Embora este tenha sido atacado por Trump e seus aliados, a promessa de acabar com a reforma na saúde assim que chegasse à Casa Branca ficou congelada. A constatação de que a sua supressão afetaria 22 milhões de pessoas e elevaria o déficit fiscal em 353 bilhões de dólares em 10 anos acabou por frear o seu desmantelamento, dando lugar a uma busca por alternativas racionais.
A elaboração do orçamento seguirá um processo semelhante: será lenta e gradual. Mas, no curto prazo, no jogo do imediatismo que ele tanto pratica, Trump emitiu um sinal claro com a proposta de rearmamento. Trata-se de uma pessoa que cumpre suas promessas e que mantém sua capacidade de sinalizar com rupturas. Esse foi o impacto almejado pelos autores do plano: o diretor do Escritório Orçamentário, Mick Mulvaney; o diretor do Conselho Econômico Nacional, Gary Cohn; e o estrategista-chefe da Casa Branca, o tenebroso Stephen Bannon.
Uma boa recepção dessa mensagem seria importante para um presidente que entrou em parafuso no seu relacionamento com a imprensa que tem as pesquisas de opinião contra si. Preocupados com sua avaliação negativa, Trump e seus assessores querem passar por cima dos filtros midiáticos e atingir seu eleitorado diretamente. A transformação dos primeiros vaivéns orçamentários em uma declaração política de alto potencial atende a essa finalidade. E também antecipa aquilo que constará de seu discurso sobre o Estado da União, marcado para a noite desta terça-feira. Nessa fala, a primeira em que o presidente estará cara-a-cara com as duas câmaras, deverá mostrar a senadores e deputados o futuro que ele almeja para os EUA. Até agora, sua opção foi pelas armas e pelo barulho.
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